foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

12 de maio de 2017

CRÓNICAS - ANGOLA É O POVO!

Image result for alexandra simeao

Visite este site angolano, onde Alexandra Simeao fala sem papas na língua:


http://www.alexandrasimeao.com/HOME/index.php/angola-meu-amor?start=6

EM ANGOLA, AS ÚNICAS PESSOAS DECENTES SÃO AS QUE DEFENDEM O MPLA.


Em Angola, as únicas pessoas decentes são as que defendem o MPLA. 
De acordo com os defensores de serviço:
- As Zungueiras sujam a cidade e dão má imagem junto dos turistas.
- Os Taxistas, são os mal formados e são todos da Unita.
- Os Jovens que pensam, são delinquentes e frustrados e os
que vendem na rua são uma cambada de ladrões.
- Os Estudantes são mal agradecidos, por não reconhecerem
que o desemprego é normal após a graduação.
- As Crianças que pedem um jardim, são produto do capitalismo selvagem.
- As Mães que defendem a vida dos filhos, são perturbadoras da ordem pública.
- Os Pais que querem um salário melhor, são inimigos da paz.
- As Avós que não concordam, são aliadas dos colonialistas.
- Os Angolanos que vivem na diáspora, quando fazem
um comentário contra, são ressabiados.
- Os Eleitores que pedem o respeito pela constituição,
são os que querem as "primaveras".
Nestas condições, afinal, quem é que votou no MPLA?

Alexandra Simeao

CONTO DE NAMIBIANO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS (Continuacao)

(java)



MARIA JAVA

Mal os primeiros raios de Sol despontavam no caminho do Leste, Maria Java já se estava banhando nas águas tranquilas do meu corpo. Não era um banho comum, parecia era um ritual, um estranho cerimonial. Depois, Maria dirigia-se para a Vila e por lá deslizava como se fosse um rio atormentando os homens com a sua beleza provocante. Maria Java não fazia nada para provocá-los, era simplesmente o seu modo de andar, a sua beleza que embriagava os homens de desejos. Ao fim da tarde, quando o Sol ia dormir roxo de cansaço, ela regressava ao ninho para voltar, na manhã seguinte, a cumprir o mesmo ritual.
Com a chegada das primeiras chuvas, Maria deu à luz um menino. Na primeira visita à Vila, as mulheres não aguetaram a curiosidade e vieram, sem cerimónias, espiar a criancinha que, nua, dormia envolta em folhas de bananeira. Houve logo ali mesmo alguém que traçou as parecenças da criança com o Xico Camionista. A novidade correu como brisa no tempo das chuvas. Só a mulher do Xico, claro, não gostou. Fez cara feia, muxoxou e foi tirar a prova visual do ADN da criança. Quando viu o menino, os resultados da análise saltaram com todos os cromossomas e também ela viu as trombas do mulato Xico Camionista, seu marido, na face angelical do menino. Revirou os olhos, muxoxou ainda mais, pôs as mãos na bunda e foi tartar do assunto com o Xico. Consta que o Xico, mulato franzino, negou conhecer a Maria Java mas isso de nada lhe valeu porque apareceu no Bar Esplanada com um olho negro, dizem, de um sopapo que lhe deu a mulher.
Depois do nascimento do filho Maria Java passou literalmente, para as mulheres da Vila, a ser uma pária, uma espécie de enjeitada da sociedade. Ignorada pelas mulheres mas desejada pelos homens enquanto deslizava pelas ruas da Vila, filho nos braços e os seios fartos de leite. O tempo, mangonheiramente foi passando e  Maria Java deixou de ser o tema de conversa das mulheres. (...)

Namibiano Ferreira (final na próxima postagem)

CONVITE: ANGOLA, O 27 DE MAIO - MEMORIAS DE UM SOBREVIVENTE


9 de maio de 2017

CONTO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS

Os sucessos da história da literatura angolana



MARIA JAVA 

 Ninguém sabia de onde ela veio, quem era ou o que pretendia. Se é que pretendia alguma coisa. A meio da estação seca apareceu na Vila, grávida e semi-nua, com um par de seios a parecerem dois maboques provocantes. Era uma mulher bela, elegante e enigmática. Não andava, deslizava pela Vila sem nunca falar ou estabelecer qualquer forma de contacto. Também não pedia e mantinha uma certa altivez. As mulheres da Vila inventaram estórias sobre ela, conversas, bisbilhotices e mujimbos. Kuribotices, enfim, que só as mulheres sabem criar sobre outras mulheres. Por qualquer estranha razão as mulheres da Vila não gostavam desta ave de arribação vinda sabe Deus de onde. Só D. Dominguinhas, sekula de muitos cacimbos e chuvas, fez saber que sabia alguma coisa sobre esta solitária e estranha mulher. O respeito e a credibilidade da velha sekula, parteira nas horas vagas e lavadeira de profissão desde os tempos coloniais, trouxe as orelhas das mulheres até à boca de D. Dominguinhas que beijando seus dedos em cruz falou: “ Juro, por Nzambi! Estava lá na margem do rio sozinha mesmo a lavar umas roupas quando ela apareceu do lado donde o Sol dorme. Chegou assim mesmo do nada, a última vez que olhei naquela direcção, eu vi poisar uma ondjava, depois mesmo ela apareceu, de tanga e mamas a apontar o céu. Agora, vocês num me perguntem mais nada mas o andar dessa moça me faz lembrar uma ondjava.” E deu uma gargalhada sonora e cantante daquelas que só uma mulher kwanhama sabe dar. E foi assim, D. Dominguinhas virou madrinha de Maria Ondjava, mais tarde ficou só Maria Java. Maria Java não se misturava com o povo da Vila, limitava-se a passear, a deslizar pelas ruas. Vivia junto da minha margem, fora da localidade, numa cubata que mais parecia um amontoado de folhas e galhos velhos e secos. As gentes da Vila, isto é, o mulherio, chamavam, com desdém, o ninho da Java e realmente parecia um ninho. (...)

Namibiano Ferreira

PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS


“A língua portuguesa é um pássaro de asas abertas”


Em edição organizada por Margarida Gil dos Reis e António Quino, esta seleção reúne trinta e seis dos autores mais expressivos da literatura angolana, apresentando histórias do nosso tempo, histórias que se centram nas relações humanas e familiares, que desnudam conflitos sociais e mergulham no interior do ser humano, mas sobretudo recriando estórias a partir da tradição africana, dando especial relevo ao que se convencionou chamar de oratura, como fonte inesgotável de inspiração. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas, onde o sobrenatural convive naturalmente com muita imaginação e invenção, próprias de um povo que se refugiou em narrativas mirabolantes aproximando o maravilhoso e o insólito, como forma de dar uma tessitura peculiar à sua mensagem, de uma maneira muito próxima do realismo fantástico que caracterizou durante as últimas décadas a literatura latino-americana. Dando especial relevo à feitiçaria e bruxaria, de uma forma que pode levar a algumas confusões, pois brincar com coisas sérias pode levar a resultados perigosos, sobretudo quando o público-alvo é pouco informado, uma grande parte dos autores vai na onda do bonito e aparentemente poético, aproveitando uma moda que em breve ficará ultrapassada pelo seu abuso, esquecendo talvez a primeira e fundamental missão do intelectual, que é ser autêntico e realista, havendo que ter muito cuidado com a forma como a linguagem alegórica é apresentada. Uma das personagens recorrentes, por ser transversal em várias etnias angolanas é a Kianda, singular de Ianda, sereia em Kimbundu, conhecida também como Deusa das Águas, uma personagem muito amada e tradicionalmente venerada através de oferendas. Pepetela, um dos expoentes máximos da literatura em Angola, tem inclusive um livro intitulado O Silêncio da Kianda. Cada meio aquático tem uma sereia, isto é, cada rio, cada lagoa, cada charco tem a sua Kianda que toma o nome do rio, lago ou cacimba. De certa forma, ela é a encarnação do próprio meio aquático. Literariamente, esta utilização da oralidade através de uma estilística cuja escrita incorpora os fenómenos socioculturais, sendo um produto válido e pertinente para conhecer efetivamente um contexto político e sociocultural de uma terra, é, de vários modos, plausível e aconselhável, mas há que perspetivar que a literatura deve ser sempre ampliada e combinada com a vida, tornando cada narrativa um observatório privilegiado de leituras de cenários históricos e socioculturais de um povo, tornando assim cada obra viçosa e profunda. Além da mãe,
A memória do conto popular africano e as heranças da oralidade nos mecanismos de manutenção, preservação e transmissão do conhecimento, dos costumes, das questões éticas e estéticas coletivas; a tradição cultural dinâmica e o importante papel da memória como repositório e veículo da cultura, na sua função de comunicação e continuidade na sociedade angolana perpassam acentuadamente na antologia de contos angolanos, Pássaros de Asas Abertas, editada recentemente em Lisboa. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas

21 de março de 2015

SIM EM QUALQUER POEMA (DIA MUNDIAL DA POESIA)

 


Apetece-me escrever um poema.

Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser entendido
pela canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do sol
e pelo carácter integro dos homens.

Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de inversos chuvosos e frios
e seja lume para acolher as gazelas
que pastam inserguras
nos acolhedores campos da imensa vida;
amizade para corações odientos
motor impelindo o impossivel
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.

Um poema
(ah! quem comparou a Africa a uma interrogação
cujo ponto é Madagáscar?)

Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha recta de afirmação;
e a beleza das florestas virgens
a precisão da engrenagem da existência,
o som fantástico do trovejar sobre pedras,
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire,
a obnubilação ansiosa das almas da penumbra,
o claro arrebol dos olhos dos homens.

Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços erguidos da podridão;
esculpido no amor

que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas do quissanje ao luar;
e as gargalhadas infantis para a minha amada;
com o calor simpático
do corpo sangrento dos homens.

Um poema fechado
- longo e imperceptível
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
da outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear de máquinas de escrever,
grito aflitivo no vácuo
e a aspiração dos homens.

Mas não escreverei o poema

Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
o caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilométricos intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?

Não escreverei o poema.

Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referias à Primavera.
Sonharei contigo.

E com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado,
ao Sol, - uma praia furiosa lá ao longe.
E ficará dentro de mim
A amargura de não escrever o poema
Ele há tantas amarguras!

Não escreverei o poema.

Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
como a força da harmonia dos braços
como a esperança no coração dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e do terror transmitido dos abismos.

Direi simplesmente sim!
Sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores
ao odor inesquecível da natureza
que apaga os possíveis cheiros amargos.

Sim!
á interrogação mágica de Talamungongo
do Cunene ou do Maiombe;
ao sonoro cântico de ritmos subterrâneos
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando paz para o fio da ancestralidade
esbatido além;
ao ponto interrogativo de Madagáscar.

Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas,
às expansões magnificas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do imbondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.

Sim!
à África-terra, à África-humana.

Direi sim
em qualquer poema.

E esperemos que a chuva pare
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem
e o desejo de escrever um poema.
Isso passa.

Agostinho Neto


In “CULTURA”, Sociedade Cultural de Angola, no 8. Luanda – 1959 

15 de março de 2015

BÚSSOLA

  Almada Negreiros


Para a Dinah:




Oriento-me no oriente
de teu corpo
esperando o sol
erguer-se fagueiro
no sorriso luminoso
candura de teu ventre
chana quente
aberta ao desejo
iluminado no muxito
de meus olhos
ondulantes.
 


Namibiano Ferreira

13 de março de 2015

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

 Artigo de opinião de  Gociante Patissa, publicado no “Semanário Angolense” e no jornal “Público”





Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo e vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.

Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul: «A língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais».

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como, por exemplo, «é maka grossa me apanhar a pata». Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do «K» pelo «C», mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes «K, W, Y», tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa

Escritor e linguísta em Ciências da Educação. Texto originalmente publicado no jornal Semanário Angolense (Angola) a 28 de Junho de 2014 



11 de março de 2015

TEMPO


Perda a perda se constrói
a mágoa
como pedra a pedra se constrói
a nossa  casa
e o rio rola com águas
macias e pacientes
as pedras que hão-de ser seixos.



Namibiano Ferreira

10 de março de 2015

A REACÇÃO AO LIVRO: “Ascensão de Angola, da Guerra a Potência Regional”




O jornal britânico Financial Times apelidou este sábado que Angola é uma “cleptocracia” dominada por uma elite que ignora os problemas da população e que é aceite “como parte integrante do sistema ocidental”.
O artigo intitulado “Why the west loves a kleptocrat” (Por que o Ocidente adora um cleptocrata) analisa o livro Magnificent and Beggar Land: Angola Since the Civil War (Terra magnífica e pedinte: Angola Desde a Guerra Civil), do investigador Ricardo Soares de Oliveira, professor de Política Comparada na Universidade de Oxford.
O texto começa por argumentar que “mesmo para os padrões dos Estados petrolíferos, Angola é quase ridiculamente injusta”, afirmando que “os oligarcas deixam gorjetas de EUR 500 (USD 542) nos restaurantes da moda em Lisboa, enquanto cerca de uma em cada seis crianças angolanas morre antes de chegar aos cinco anos”.
“No entanto, esta cleptocracia com poucos estudos é aceite como parte integrante do sistema ocidental. Os expatriados fazem a economia angolana mexer. Os oligarcas angolanos habitam no luxo das escolas públicas britânicas, dos gestores de activos suíços, das lojas Hermès, etc”, lê-se.
soares-angola-final-webA publicação tem como base os dados apresentados por Ricardo Soares de Oliveira no seu segundo livro, que analisa o estado país desde 2002, com o fim da guerra, onde “algumas famílias de raça mista” passam a dominar o sector político e social. Os dirigentes pertencem “em grande parte a umas quantas famílias de raça mista da capital, Luanda, que considera os cerca de 21 milhões de angolanos negros do mato ou dos musseques pouco civilizados e tem pouco desejo de os educar”. O autor do livro garante que “os angolanos continuam a ser dos menos educados e das pessoas menos saudáveis ​​do mundo”. Facto que, segundo o livro, não incomoda o Governo.
“Os governantes contratam estrangeiros qualificados para praticamente todos os sectores principais da economia” e, “mesmo quando há a ilusão de um papel de Angola, as tarefas reais são realizadas pela KPMG, Ernst & Young, McKinsey, Deloitte bem como por outros fornecedores internacionais mais pequenos”.
“Por trás de cada magnata angolano há uma equipa de gestão maioritariamente portuguesa”, que não se preocupa com as consequências da sua gestão, por isso os estrangeiros são responsáveis pelo petróleo, “fazem luxuosos vestidos e constroem aeroportos sem sentido no meio do nada”, lê-se.
“Trabalhadores chineses constroem fábricas que, em seguida, não são utilizadas. Apenas dois sectores ocidentais estão mal representados em Angola: os meios de comunicação e as ONG. O regime não precisa deles”, continua o artigo.
Os governantes de Angola têm “uma ideia generalizada de que cada interlocutor é impulsionado pelo lucro e, portanto, as soluções, e as pessoas, podem ser comprados”. Partindo desse princípio, esses dirigente acumulam o lucro “nos bancos e gastam-no nos quadros, em cirurgias plásticas e em casas de praia, para além de acções de empresas, especialmente em Portugal”.
O texto do Financial Times conclui com uma referência à crise actual. “A elite fez a festa durante o crescimento do petróleo. O provável impacto no regime do colapso nos preços é pouco, porque se só se está a alimentar uma pequena percentagem do povo, USD 50 dólares chega e sobra”.



Magnificent beggar land_image


Luanda “has been partly re-Europeanized”, he writes. “Behind every Angolan tycoon there is a mostly Portuguese management team.” The expats enable an elite that is killing Angolan children by neglect. No matter: the western professional’s ethos is to do a professional job and not worry about much else. And so foreigners pump Angolan oil, make expensive dresses and build pointless airports in the middle of nowhere. An “Israeli defence outfit” guards a stretch of Angola’s border. Chinese workers build factories that then sit unused. Only two western sectors are barely present in Angola: the media and NGOs. The regime doesn’t need them.
The regime likes to remind expats that they are in Angola to make money and shut up. Hence the almost monthly ritual in which “glum-looking foreign workers” are deported live on TV, while the commentators debate “immigration and its impact on Angolan jobs and ‘national culture’” just like European pundits.
Almost all western governments happily shut up. They used at least to pretend to have a “democratisation agenda”: just give General X a few more years and you’ll really start seeing reforms etc. But in the past decade the west has virtually abandoned even democratic talk. This is the consequence of the Iraq war, China’s rise as a new friend to tyrants and the global economic crisis that has made us desperate for any deal, no matter how dirty. China doesn’t nag friends about human rights — and nor do we. In 2013, the UK declared Angola a “High Level Prosperity Partner”.
Angola’s rulers, says the book, have “a pervasive assumption that every interlocutor is driven by the profit motive and, therefore, that solutions, and people, can be bought”. This assumption is almost always correct. Foreigners merely chuckle in private about garish Angolan excess.
Angola’s elite “has spent the last decade converging with the material life and cultural signifiers of the global jet-setting class”, writes Soares de Oliveira. The happy few jet around western capitals, unhindered even by talk of travel bans or freezes on their bank accounts. We accept that Angola’s money is their personal property. Anyway, they stash it in our banks and spend it on our paintings, plastic surgery and holiday villas, plus stakes in our companies (especially in Portugal).


Retirado do Jornal britânico “Financial Times” de 6 de março de 2015

Na íntegra aqui: http://www.ft.com/cms/s/0/e8fe02d4-c2b1-11e4-a59c-00144feab7de.html#axzz3TyBuio6n se conseguir aceder a esta página fora do Reino Unido.